Contudo, há uma excepção. O pai de Dennis Hulme - que, se estivesse vivo, faria neste 18 de junho 90 anos de idade - foi um agricultor e soldado ao serviço do exército neozelandês, e na II Guerra Mundial, tornou-se dos poucos soldados a conseguir a Victoria Cross, a mais conhecida condecoração por bravura do exército britânico. E viveu tempo suficiente para ver os feitos do seu filho, o único neozelandês campeão do mundo de Formula 1, piloto pela Brabham e McLaren.
Alfred Clive Hulme nasceu a 24 de janeiro de 1911 em Dundein, no sul da Nova Zelândia, era filho de um empregado de balcão, e quando acabou o liceu, onde desenvolveu interesse na luta greco-romana, tornou-se trabalhador numa quinta, até que em 1940, aos 29 anos, já casado e com dois filhos - incluíndo Dennis - alistou-se na Segunda Força Expedicionária da Nova Zelândia, mais concretamente no 23º Batalhão, e fazia a sua recruta em Cristchurch.
Embarcado a 1 de maio de 1940 para a Europa, com o posto de Cabo, chegou cerca de um mês depois ao Reino Unido, onde foi promovido a Sargento, e o seu batalhão ficou no resto do ano no país, para servir como reserva em caso do invasão nazi, que no lado alemão tinha sido batizado de Operação Leão Marinho. No inicio de 1941, o batahão embarcou para o Médio Oriente, mais concretamente para o Egito, mas pouco depois, em abril, seguiu para a Grécia, fazendo parte da Segunda Divisão Neo-Zelandesa, onde iria ver ação com a invasão nazi daquele país.
Ficando inicialmente no vale do Monte Olimpo, entrou em combates por um dia, até começarem a fazer uma retirada ativa, rumo até ao sul, onde foram evacuados para Creta, onde chegaram a 25 de abril. Envolvido na policia militar, Clive Hulme estava num batalhão disciplinar, vigiando soldados que tinham quebrado a disciplina militar. Contudo, a 20 de maio, a "Wehrmacht" decide invadir Creta, numa operação com paraquedistas, e foi nessa altura que aconteceram as ações que mais tarde lhe deram a Victoria Cross.
Indo para o "seu" 23º Batalhão, liderou cargas contra os soldados alemães, atuando também como mensageiro. Pouco depois, liderou outra carga para libertar prisioneiros de guerra, seus compatriotas, usando a baioneta para neutralizar as sentinelas. Quatro dias depois, a 25 de maio, foi um dos soldados que atacou a cidade de Galatas, para a libertar dos alemães, e destruiu um ninho de metralhadora com granadas, pois este impedia o avanço dos neozelandeses. No dia seguinte, soube que o seu irmão, Harold, tinha sido morto num ataque alemão, e com o seu batalhão a receber ordens de evacuação, ele foi para a retaguarda, onde pegou numa espingarda e algumas granadas, para deter o avanço alemão. Matando três soldados só com a espingarda, e detendo outros com a granada, conseguiu fazer com que a evacuação fosse bem sucedida para ele e para o seu batalhão.
As suas ações deram atenção aos oficiais, que afirmaram isto ter ajudado a elevar a moral dos soldados, então numa situação difícil. Mas havia mais: três dias depois, a 28 de maio, um grupo de "snipers" alemães tentou entrar numa posição mais avançada para causar pânico junto dos oficiais neozelandeses, que estavam a ter uma conferência. Clive Hulme voluntariou-se para os desalojar do lugar. Com um acompanhante a usar binóculos de localização, e com um camuflado, Hulme começou a eliminar os snipers inimigos, um a um, e no dia seguinte, matou mais três, bem como eliminou numa posição de morteiros, mais quatro soldados.
No meio disto tudo, foi ferido por duas vezes, uma no braço esquerdo, outra no ombro esquerdo, mas recusou ser evacuado. A 30 de maio, ele e o seu batalhão foram evacuados de Creta, rumo ao Egito.
"No dia 28 de Maio, em Stylos, quando um morteiro pesado inimigo bombardeava intensamente uma crista muito importante ocupada pelas tropas de retaguarda do Batalhão, infligindo pesadas baixas, o Sargento Hulme, por sua iniciativa, penetrou nas linhas inimigas, eliminou o pessoal do morteiro (quatro homens), desactivou a arma e, assim, contribuiu significativamente para a retirada do corpo principal através de Stylos. Da posição do morteiro inimigo, avançou para o flanco esquerdo e eliminou três atiradores que estavam a causar preocupação à retaguarda. Com isto, o seu total de atiradores inimigos perseguidos e abatidos chegou aos 33. Pouco depois, o sargento Hulme foi gravemente ferido no ombro enquanto perseguia outro atirador. Ao receber ordens para recuar, apesar do ferimento, dirigiu o tráfego sob fogo e organizou os soldados dispersos de várias unidades em grupos de secção.", concluiu.
Por essa altura, Hulme foi mandado de regresso para a Nova Zelândia para tratamento das suas feridas e reabilitação. Recebeu a Victoria Cross em Nelson pelo Governador-Geral do país, em representação do rei Jorge VI. Ele foi um dos dois soldados que receberam a condecoração pelas suas ações em Creta. Em fevereiro de 1942, foi considerado inapto e dispensado, mas cerca de um ano depois, foi novamente chamado, mas para servir na frente caseira, como sargento-major.
Depois da guerra, Hulme foi trabalhar numa exploração agrícola na região de Te Puke, onde foi prospector de água, fazendo furos para fins agrícolas e de irrigação. O seu filho começou cedo a conduzir, ao colo do seu pai, até se tornar famoso no meio automobilístico. Quando ele foi para a Europa, prosseguir carreira como piloto, já Hulme pai tinha sido considerado inválido devido às suas feridas de guerra, e teve mais do que tempo para ser procurado por jornalistas devido aos feitos do seu filho. Do qual sempre sentiu orgulho.
Clive Hulme morreu a 2 de setembro de 1982, aos 71 anos, dez anos antes do seu filho sofrer um ataque cardíaco fatal, a 4 de outubro de 1992, quando corria a Bathurst 1000 ao volante de um BMW M3, aos 56 anos de idade.







































